CRÔNICA: A trágica corrida




A educação das crianças deveria começar pela educação dos seus pais, de seus avós, de seus bisavós, de seus trisavós, de seus tetravós, e dos pais, avós e bisavós de seus tataravós.

Como se vê, tudo é muito fácil e muito simples.

Existem, claro, outras maneiras mais cruentas de a sociedade tornar-se educada. Cito o exemplo do ensinamento de Lamartine: “Só o tempo pode tornar os povos capazes de se governarem a si mesmos. A sua educação se faz por suas revoluções”.

Com sua profunda filosofia humorística, Millôr falou sobre fatores especiais de educação e deseducação : “É inegável que a leitura melhora fundamentalmente o ser humano. Claro, se ele for alfabetizado. Mas, a televisão piora até o analfabeto”.

Desde o tempo de minha mais longínqua antiguidade, tenho o hábito de provocar amebas e protozoários com minha pergunta ingênua: “Quem educa os educadores?” Não é uma generalização. As exceções sustentam as regras.

Leopardi, em seu “Pensamentos”, permanece contundente depois de tantos anos, ao dizer, em palavras semelhantes, que algumas das pessoas que encarregamos de educar nossos filhos, sabemos, com certeza, não foram educadas. Como, então, achamos que elas podem dar o que não receberam ?

Em seguida, vem Christian Margenstein, com a simplicidade das verdades naturais: “O melhor método de educação para uma criança é arranjar-lhe uma boa mãe”.

Pois bem. Haveria montanhas de páginas escritas pelas tintas de uma multidão de gênios e tolos, e o assunto não se esgotaria. Ainda sobrariam densos pensamentos e toscas imbecilidades, de tal modo que, olhando pela janela através da qual eu vejo o algoz, as armas, o sangue, o medo, o grito, a sirene, a câmera nas paredes, os sons dos trogloditas a estuprar sossegos e silêncios, o extermínio da civilização no bairro onde moro, no mundo onde vegeto, no tempo em que me desfaço, na selva que adquiriu a brutalidade dos humanos, no galho onde me penduro, na toca onde me enfio, na lama onde me enterro, ecoa o gemido agônico de H.G. Wells: “Entramos numa corrida entre a educação e a catástrofe”.

Mas o seu lamento está desatualizado. O escritor visionário não foi capaz de adivinhar o final contemporâneo da corrida, após a constante vantagem acelerada da catástrofe sobre o passo trôpego, a perda de fôlego e de energia vital da educação, a arrastar-se na direção de uma tosca linguagem de fumaças, tambores, grunhidos e expressões reveladoras da indigência mental de um grande contingente de seres impensantes.
O embrião da violência, do desrespeito, da frigidez, da insensibilidade, rispidez, brutalidade, aspereza, crueldade e ousadia, muitas vezes é gestado no ventre doente de afeto, e de educação, afinal, “não é uma alma nem um corpo que se formam, é um ser humano, e não se deve separar uma coisa da outra”. (Montaigne – em seus Ensaios: “Da Instrução da Criança”).

Da infância vivida na orfandade de pais vivos, às vezes indiferentes, desconhecidos, ou ausentes, vai-se à adolescência e à mocidade que se acreditam sábias e imortais, portanto equivalentes de Deus, e à idade adulta desnutrida de valores e princípios norteadores da arte de viver, que não foi ensinada, que não foi aprendida.

Os lábios mudos de palavras que se calam pela aridez da educação, do respeito, da dose mínima de afeto para a convivência, e da falta de exercício da arte de viver, não pronunciam, desde quando se iniciou a corrida entre a educação e a catástrofe, o: obrigado, por favor, com licença, desculpe, sinto muito, bom dia... e, desde então, avançou-se, dos atos antissociais, para o crime, o horror e a barbárie, com protagonistas que adicionam à falta de educação, um caráter deformado e uma torta personalidade, fincados no exibicionismo, narcisismo, egoísmo, consumismo, egocentrismo, individualismo, e todos os “ismos” que emolduram a catástrofe, franca favorita nessa corrida atroz em que todos sairemos, tragicamente, derrotados.

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