Crônica: Esperança e nostalgia




Apenas quem é muito tolo sente uma felicidade perene.

Só consegue ser o tempo inteiro feliz quem só percebe evidências superficiais, não vê o que está acima de sua cabeça, abaixo de seus pés, diante de seu nariz, na linha do horizonte, e no cenário da realidade que ele não enxerga às suas costas.

O ente mais sensível sente mais. O ser contemplativo enxerga mais, e conhece mais que os outros. Mas, a sensibilidade superior e o maior conhecimento podem trazer-lhes a melancolia, às vezes profunda, que se caracteriza como um estado de desespero menos estrepitoso.

A melancolia é um estado contínuo de tristeza, de desencanto geral, quase sempre reativo a experiências traumáticas que afetaram o âmbito psíquico, o universo psicológico de uma pessoa, mas pode pronunciar-se até mesmo sem haver um motivo visível, e, nesse caso, ela é considerada como sendo um sintoma psicopatológico afeto ao campo da psiquiatria.

Pensar sempre foi para mim o mais imenso desconforto de minha existência. Não apenas quando penso, querendo, mas sobretudo quando o pensamento, sem permitir descanso à minha mente, não lhe concede intervalos nem pausas, move-se por ele mesmo, e me obriga a pensar e a pensar, e, nesse exercício ininterrupto, atormentam-me os obstáculos que não me deixam devassar o desconhecido, desvendar mistérios, distinguir verdades, e, além disso, sobrevêm-me dúvidas, medos, paranóias, e um conflito entre esperanças e descrenças.

Em certos momentos lanço-me no vôo de minha incontida imaginação e percorro de olhos oclusos os espaços onde se fundem a realidade e a ficção, e me perco e me encontro nos sonhos e pesadelos desenhados por minha consciência quando adormeço, quando estou desperto.

Às vezes o pensamento, acomodado sobre a razão, sofre o arrastão de meus impulsos, e da avalanche de meus instintos, e não haverá barragens e diques capazes de reter as arremetidas de um coração dócil e telúrico, manso e terrível, decidido, em intermitências, a romper relações com a razão e o pensamento.

Às vezes meu pensamento ocupa-se com a visita de minhas nostalgias.

O imenso Galeano escreveu: "Nos refugiamos en la nostalgia cuando sentimos que nos abandona la esperanza, porque la esperanza exige audacia y la nostalgia no exige nada".

Vejo a esperança como um feixe de luz que se projeta à frente do caminho, mesmo quando faz escuro, mesmo quando não existe nada além do caminho escuro. A esperança às vezes é insana, inexplicável, insensata, mas é o sinal da indômita alma humana na teimosa audácia do caminhante.

Por isso não enxergo a nostalgia como um refúgio, ela não exclui esperanças, nem trava os passos para se ir adiante.

A nostalgia é um sintoma natural de uma melancolia benigna, específica, determinada, e definida pela lembrança das perdas sentidas, de trechos dos tempos idos e da realidade que não volta mais. Não é uma dor difusa de origem desconhecida, um estado de tristeza sem sentido e sem razão.

A nostalgia inscreve-se no coração humano como uma certidão indelével da vida vivida, e essas lembranças vão na bagagem afetiva do caminhante e o acompanham e se incorporam a todos os novos momentos de sua felicidade e de suas dores, até o passo final do seu caminho.

Categorias


Minhas fotos

Busca



Newsletter

Cadastre o seu e-mail abaixo e receba as nossas newsletters:




Parceiros

Melting-Pot Production Cascione Advogados Associados Anuncie aqui City Parking