Crônica da AT Revista: Um cronista






Uma vez ou outra, um leitor pede para eu escrever uma crônica suave, delicada e graciosa, como algumas, antigas, redigidas ao sabor de um tempo complacente com minhas líricas tolices, e surtos sentimentais, um tempo companheiro de meus sonhos, e tolerante com a mutilada poesia de minha prosa, desnuda de rimas e versos, mas, ainda assim, poesia, feita do meu jeito.

Cronistas, como de hábito e de alma, sentem, ainda moços, uma vaga tristeza diante da vida por saberem ser curta a distância, e breve o tempo, entre os fugazes adiamentos e a inexorável consumação, entre o início e o fim, ambos ocultos num indevassável mistério, que somente os cegos pela fé tem a bem-aventurança de enxergar.

Não se espere dos velhos cronistas, que se convertam a caminho de Damasco, sejam apóstolos do bom humor, ou discípulos contentes de Pollyana. O riso, muito raro, nos leitores de crônicas, provém de trechos onde o escritor debocha de si mesmo, expõe a tragicomédia de seus tombos, desenha a charge de seus momentos ridículos, exterioriza o grotesco e o caricato de seu íntimo, ou fala sério utilizando o escárnio de extravagante ironia.

Um cronista, ainda que jamais tenha escrito crônica alguma, é agudo (e involuntário) observador do mundo, de um mundo que se estende pelo cosmos sem limites, mas cabe no espaço côncavo de sua mão, ou se projeta, em luz e sombras, na tela infinita de sua retina.

Certa vez, com a idade de 14 anos, ainda menino de ginásio, fui escalado para saudar um palestrante septuagenário, de semblante severo e grave, o escritor Agripino Grieco, o mais, implacável, odiado, temível e respeitável crítico literário do Brasil.

Não me lembro de nada, além de meu estremecimento e ranger de dentes, diante daquele ilustríssimo mal encarado. Sobrevivente de meu próprio discurso escrito no feitio de uma crônica impúbere, eu estava prestes a sair pela direita, jovem Leão da Montanha, quando o velho Agripino interceptou-me os passos, iluminando-me com um imprevisível olhar terno e piedoso, um surpreendente sorriso de homem dócil e bom.

Nem ele, nem eu, poderíamos adivinhar esse transcurso de tantos anos de minhas crônicas, desta literatura menor segundo o juízo de Agripino Grieco para quem os “cronistas são excelentes nadadores de piscina, ao contrário dos romancistas, que nadam em alto mar”.

Assim como os cronistas, o destino muitas vezes é um escritor que teima em nadar nas poças d’água, e escreve em linhas tortas os romances de nossas vidas.

O destino dá, aos cronistas, a alma frágil dos passarinhos, a argúcia dos demônios, a mansidão de monges reclusos, a visão que vê além do invisível, o dom de sentir em silêncio, e o de fingir a indiferença que não sente.

Mas o cronista não é capaz de escrever a longa história que não existe, de inventar um fato com intermináveis metástases, de criar a ficção que se estende pelas múltiplas páginas de um romance.

O cronista vê, sente, e transmite o grito de sua alma, o sussurro de seu coração, a voz de suas emoções. E não lhe importa o vigor de suas braçadas, o fôlego de nadador, a distância do percurso, o desalento do naufrágio.

Vale, apenas, o gesto de escrever o seu sentimento, que pode restar no rascunho do pensamento, em páginas confinadas nas gavetas, em textos rasgados, ou em crônicas que se desnudam diante do leitor.

A crônica vale como uma certidão de sentimento redigida por minhas próprias mãos. Como disse Drummond: “Tenho apenas duas mãos/ e o sentimento do mundo”.

Mas, finalizo com Dante Milano: “Sentimento é aquilo que só nós sentimos. Mas quando o exprimimos, é o mesmo que todos sentem”.

Busca



Newsletter

Cadastre o seu e-mail abaixo e receba as nossas newsletters:




Parceiros

Anuncie aqui City Parking Cascione Advogados Associados Melting-Pot Production