Crônica: A beleza e a feiúra






Em seu início, a frase de Millôr parece sustentar a irrelevância da beleza. Mas o complemento do texto implode tudo: “A beleza é superficial. A feiúra, não”.

Aí vem Vinícius, parecendo açoitar corpos e almas: “As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental”.

Não. Não havia açoite. O poema, em sua verdade integral, não se restringe à amarga sentença da frase inaugural. O poeta finda seu “Receita de Mulher” com o poema ofertando a redenção de feias e bonitas, se elas preencherem as contraditórias exigências críticas de Vinicius, e, para ele, todas serão lindas em sua “incalculável imperfeição”, e constituirão “a coisa mais bela e perfeita de toda a criação inumerável”.

Assim, a versão, romântica e antiga, sempre pareceu continuar absolutamente verídica: “Quem ama o feio, bonito lhe parece”.

Mas, mudam os tempos, e, seguramente, a estética da beleza vai e vem, entre as belas rechonchudas nuas, de Renoir, e Giselle Bündchen, que, naqueles tempos de corpos abundantes, bem haveria de encarnar Marguerite, de Dumas, como uma linda Dama das Camélias, em estado terminal.

Mudam os tempos, e muda o mundo, esse planeta de infinitos lados, de gente infinita, de tantos povos, raças, hábitos, crenças, culturas, tradições, esquisitices, carácteres, índoles, temperamentos...

Do outro lado do mundo, os olhos puxados dos orientais tornam os semblantes muito semelhantes. Com um olhar superficial, a impressão que se tem, diante de um grupo de japoneses, em viagem, é a de que são todos iguais.

Descobri, nesta semana, que as aparências enganam. Eles devem ser tão distintos e tão diferentes entre eles, que a beleza e a feiúra têm o trágico e mesmíssimo contraste como em todos os lados deste planeta de graves ou sutis desigualdades.

A feiúra está a reduzir a taxa de natalidade no Japão. Até 2060, um terço da população nipônica vai desaparecer.

Com base numa pesquisa apontando esses dados, o conceituado intelectual Korinaga Takuro afirma que é preciso cobrar dos homens bonitos, o dobro das taxas e impostos exigidos dos cidadãos comuns.

Segundo a pesquisa, o sábio Korinaga diz ser este o jeito de atingir os bolsos dos homens mais atraentes que exercem monopólio sobre a mulherada. Há um cartel dos bonitões, por isso os feios, comprovadamente, têm extrema dificuldade de arranjar namoradas.

Segundo a proposta, um grupo de juízes diria quem é feio e quem é bonito.

Por causa do castigo financeiro imposto aos pobres bem apessoados, fico a imaginar as cirurgias plásticas especializadas em criar tribufus, e toda a sorte de mapas do inferno.

Pitanguis às avessas, fariam implantes de pelancas, cavariam sulcos e rugas, espalhariam pés de galinha, executariam papadas monumentais, fabricariam bolsas e sacolões em torno de pálpebras puxadinhas, esbugalhariam olhos amendoados, montariam narizes de tucano e orelhas de abano, e a plástica democratizaria as relações, colocando os homens em pé de igualdade. Então, como se diz que, no fundo, no fundo, o amor é lindo, as mulheres voltariam a fazer as escolhas com base nas (inverossímeis) milenares confissões de que o homem não precisa ser bonito. O importante é que ele tenha caráter, seja sensível, inteligente, protetor, companheiro e gentil.

De qualquer modo, confissões e verdades milenares mudam como as mulheres de Renoir. Hoje, podem dobrar as taxas dos bonitões que a maioria das mulheres pagará e não bufará. E com útil desprendimento e extrema doçura.

E que os feios as perdoem, porque elas sabem o que fazem. Sempre.

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