Baú do Cascione: Mendoza, neve e vinho






Depoimento ao jornalista Thell de Castro

Vicente, essa foto mostra você no meio da neve. Como você foi parar aí?

Esta foto é de junho de 1968, época em que eu começava a lecionar na Faculdade de Direito. Formado há apenas dois anos, recebi um convite formal da Sociedade Internacional de Criminologia para participar de um Congresso Internacional, na cidade de Mendoza, na Argentina.

A cidade de Mendoza fica próxima dos Andes. Do outro lado da Cordilheira, está a cidade de Santiago, no Chile.



Na época eu não tinha recursos para fazer uma viagem como aquela, mas eles me enviaram a passagem, e então fui com apenas algum dinheiro no bolso.

Para dar uma idéia da minha condição, eu não tinha nem agasalho adequado. O casaco, que estou usando, na foto, foi emprestado pelo José Hamilton do Amaral, um excelente professor de Medicina Legal, e meu amigo. Ele está à esquerda, com a máquina fotográfica pendurada. O pior é que no alto da Cordilheira estava muito frio – 7 graus abaixo de zero. Congelado, enrolei-me com um inútil cachecol.

Um detalhe: o sapato que eu estava usando, era do tipo mocassim, de sola muito fina. Como é fácil deduzir, meu congelamento foi dos pés à cabeça.

Mas, e o congresso, deu tudo certo?

O congresso foi espetacular, especialmente pela convivência e pelo estímulo ao meu aprendizado que dura a vida inteira.

Nessa foto, dois são professores de Direito, um é professor de Medicina Legal, o outro de Criminologia, e, no meio deles, eu.

Imagino que, pelo frio, você não voltou 100% ao Brasil, certo?

Quando voltei para o Brasil, cheguei com 41 graus de febre e uma ilustre notável pneumonia, para ninguém botar defeito. Eu tinha sido vencido pelo frio por não ter condições de comprar um agasalho.

Mas, houve boas compensações. Em Mendoza foi a primeira vez em que tomei vinho, com extremo prazer. Eu não gostava, quase nem sequer bebia. Entretanto, por causa do frio, bebi o vinho, que me fez bem. Ele me socorreu no momento de um inesquecível congelamento. Dali em diante, o vinho, e eu, fizemos uma aliança para sempre. Só que, naquela situação, só bebi pelo desespero, para tentar me aquecer, mas, mesmo assim, caí doente.

Mas o contato com a neve, mesmo com as circunstâncias, foi algo diferente, não?

Aquele momento foi muito especial. A neve era, para mim, algo inatingível. E aquela visão foi inacreditável.

A experiência valeu?

No final, tudo vale a pena. Mesmo sem condições financeiras para enfrentar o frio, e apesar da pneumonia, foi muito bom o aprendizado da ciência na própria fonte, e conhecer figuras importantes do mundo do Direito e da Criminologia, pessoas que se tornaram minhas amigas, ao longo da vida. Dali em diante estive em incontáveis congressos internacionais. A experiência acumulada sempre me fortaleceu o conhecimento.

Naquele momento de Mendoza, no entanto, eu tinha pouco tempo de formação e estava apenas começando a lecionar (que é um ótimo jeito de aprender). Mas, não sei, até hoje, por que fui convidado. Sei que aceitar o convite foi um atrevimento.

Mas a foto, em si, traz-me nostalgia, por me fazer recordar o começo...

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